terça-feira, 28 de março de 2017

Consultas de Psiquiatria

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sábado, 14 de novembro de 2015

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Medicamentos para o tratamento da depressão. Diferenças entre antidepressivos e “calmantes”.

É frequente ouvirmos no nosso dia-a-dia, no cinema ou televisão algumas expressões do género: “ 1) estou deprimido, devo tomar um Xanax, 2) estou angustiado, preciso de um Lorenin, 3) estás muito triste, toma um calmante, 4) estás muito em baixo, toma um calmante”.

Essas afirmações parecem estar correctas e adequadas para as respectivas situações. No entanto, a evidência científica mostra que não! Porquê?

Vou tentar falar sobre este assunto com o máximo de clareza possível e o mínimo de jargão médico-psiquiátrico que conseguir. O meu objectivo é que o leitor tenha uma ideia transparente deste tópico.

As designações a) “medicamentos antidepressivos” b) “calmantes”e c) ansiolíticos não são claras para muitas pessoas. No quotidiano são muitas vezes utilizadas como sinónimos. O Prozac® (fluoxetina) é um dos antidepressivos mais conhecidos pela população em geral. O Valium® (diazepam) é efectivamente um dos ansiolíticos e “calmantes” que quase todas as pessoas já ouviram falar. O Prozac®, é utilizado essencialmente para tratar a depressão e a ansiedade, embora tenha outras indicações terapêuticas. O Valium® é muito utilizado em situações de ansiedade, NÃO é um antidepressivo, mas pode ser utilizado como tratamento adjuvante na depressão, sobretudo quando esta cursa com muita ansiedade associada. Este aspecto gera alguma confusão. Poder-se-á perguntar: “se o Valium® não é um antidepressivo porque é utilizado em doentes com depressão?” A resposta a esta pergunta não é simples mas vou tentar clarificá-la, indicando duas das suas principais utilizações nesses casos. 1) O Valium® , no tratamento inicial de uma depressão, durante poucos dias evita alguns efeitos secundários dos antidepressivos, 2) Como grande parte das situações de depressão cursa com ansiedade, e os antidepressivos demoram 3 a 4 semanas a fazer efeito, o Valium® pode ser utilizado, nos primeiros dias de tratamento, para reduzir temporariamente alguns sintomas de ansiedade.

Por uma questão de clareza, gostaria de fazer uma comparação entre o tratamento da ansiedade e depressão com o tratamento de uma amigdalite bacteriana:

O Valium® (ou outros calmantes como o Xanax®) estão para o tratamento da depressão como o BEU-U-RON (paracetamol) está para o tratamento da dor de garganta numa amigdalite bacteriana

O Prozac® (ou outros antidepressivos) estão para o tratamento da depressão como um antibiótico (ex. amoxicilina) está para o tratamento da amigdalite bacteriana.

Ou seja, o Valium® “alivia a dor psíquica” assim como o paracetamol alivia a “dor física” numa amigdalite.

O Prozac® (ou outros antidepressivos) resolve “os sintomas nucleares de uma depressão” assim como um antibiótico trata os “sintomas nucleares de uma amigdalite bacteriana, isto é, neste caso elimina as bactérias”.

A.S.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Porque estou deprimida se as minhas análises e TAC ao cérebro estão normais?

 Há alguns dias atrás fiquei sensibilizado com a atitude de uma utente quando esta foi confrontada com a possibilidade de se encontrar numa fase de depressão grave. A utente parecia perplexa, triste e revoltada consigo própria. Apesar de já ter passado por alguns eventos de vida adversos e de ter alguns casos na família de pessoas com depressão, dependências e impulsividade, sempre conseguira ultrapassar os problemas e seguir a sua vida com normalidade. Entretanto, em contexto de um evento de vida significativo ocorrido 3 meses atrás, começou a ter sintomas de depressão.



O que se passa comigo Dr.? O que fiz para merecer isto? Há tantas pessoas que têm situações de vida muito piores do que as minhas e não desenvolvem depressão? Sinto-me fraca, tenho vergonha de mim própria. Apetece esconder-me das pessoas… é humilhante…!” Essas foram algumas das frases que a utente utilizou para descrever o estado de angústia que passava.



Devo dizer que, apesar de, ao longo da minha modesta prática clínica, já ter estado perante situações parecidas, havia algo de diferente na maneira como essa utente enquadrou a sua situação. Perguntei-lhe o porquê? Disse-me que voluntariamente tinha vindo a esforçar-se para ultrapassar as dificuldades em adormecer, sentimento espontâneo de tristeza, desinteresse pelas actividades do seu dia-a-dia, dificuldade em focalizar a atenção e em concentrar-se, diminuição do apetite e períodos de pensamentos de desinteresse pela vida. Depois acrescentou: “estes sentimentos são dos mais difíceis se ter e de aceitar… é que isto não é como ter uma pneumonia ou tensão alta… nesses casos o corpo é que está doente… Depressão? Isto é para pessoas fracas e preguiçosas!”.

 Curiosamente, para a utente, não lhe era estigmatizante recorrer a um psiquiatra, ao contrário de muitos utentes que têm receio de serem considerados “malucos”. Passados algum tempo a doente disse-me: “Dr. como posso estar deprimida se as minhas análises e a TAC ao cérebro estão nomais?”. Bem, nessa altura, entendi a razão da angústia da utente! E devo dizer que foi muito importante ter tentado compreender o seu ponto de vista. Depois tentei mostrar à utente algumas das alterações que ocorrem na depressão grave, independentemente do contexto, isto é, se a causa é meramente “biológica” ou se surge em contexto de eventos de vida adversos.



Alterações funcionais cerebrais na depressão:



Antes de abordar directamente essa questão penso que é relevante pensar-se sobre o seguinte:



1) Imaginemos que significado tinham os sintomas para um pessoa com AVC, há 80 anos atrás, antes da utilização da TAC-CE no diagnóstico dessa situação clínica. Podia-se fazer um radiografia ao crânio que não se encontravam significativas alterações!



2) Agora imaginemos que significado era atribuído aos sintomas de um enfarte do coração antes de existir electrocardiograma ou análises de marcadores de lesão do músculo cardíaco?



A situação acerca do significado do que é sofrer de depressão actualmente pode, pelo menos em parte, ser comparada aos dois exemplos anteriores. Felizmente nos dias que correm já temos boas notícias às pessoas que sofrem de depressão, embora ainda ao nível de investigação: existem realmente alterações da função de certas áreas cerebrais na depressão, nomeadamente ao nível do córtex pré-frontal do hemisfério esquerdo. Utilizando uma linguagem mais clara, é como se os neurónios dessas áreas funcionassem de maneira diferente dos neurónios de uma pessoa não deprimida. No entanto, tais alterações só são detectadas através de técnicas muito sofisticadas que avaliam a “actividade ou funcionamento” dos neurónios. Os métodos de imagem como TAC ou Ressonância Magnética não permitem a visualização dessas alterações. Outra boa noticia é que após o tratamento apropriado os neurónios voltam a funcionar ou a ter uma actividade normal, traduzindo-se na prática numa recuperação e melhoria dos sintomas e na possibilidade da pessoa voltar a fazer a sua vida normal.
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